da Reforma Agrária
Com os olhos postos<br>no futuro
Num tempo em que o domínio das multinacionais do agronegócio no mundo é cada vez maior – determinando tipos e dimensão das produções e os preços dos factores de produção ao produtor e ao consumidor –, no qual a divisão internacional do trabalho se desenvolve a favor do grande capital e das oligarquias financeiras, e que parte dos solos aráveis estão nas suas mãos ou dependem de si, a soberania alimentar assume uma importância decisiva para a sobrevivência e independência dos povos e o progresso social.
Uma nova Reforma Agrária é uma necessidade do nosso tempo
A luta pelo uso e a posse da terra é, desde há muitos séculos, um ponto de grande clivagem e confrontação entre aqueles que a trabalham mas que não usufruem dos rendimentos dela tirados e os grandes senhores da terra que, recebendo rendas e lucros chorudos, sujeitam os trabalhadores à vil exploração e os pequenos agricultores, rendeiros e seareiros à ruína. Esta luta conheceu, em Portugal, diversos momentos, dos quais se destaca: a Lei das Sesmarias, em 1375; a revolução de 1383/85, onde o povo, clamando melhores condições de vida, criou as condições para a passagem da propriedade da terra da alta nobreza para as mãos da burguesia. Mas mais uma vez a posse da terra, tendo mudado de mãos, não foi parar às mãos daqueles que a trabalhavam.
Cerca de 300 anos depois, Severim Faria (sacerdote católico, historiador, escritor...), afirmava que «a terceira causa por que falta gente popular é não terem, neste reino, terras que cultivem e de que possam tirar sustentação (…) e o Alentejo que poderá socorrer a esta falta (porque é quase tanto espaço como o resto do reino), como está todo dividido em herdades e as mais delas, muito grandes, nem se povoa, nem se cultiva». Em 1834, extingue-se os mosteiros e ordens religiosas e em 1863, através da venda em hasta pública, os burgueses endinheirados tomam posse de grandes extensões de terra, o que deu origem à estrutura da grande propriedade latifundiária, que perduraria.
Com a revolução republicana de 1910, a luta pelo uso e posse da terra ganhou novo alento. Mas o novo poder, minado por latifundiários, não atacou nem resolveu a mais premente questão, mantendo milhares de trabalhadores sem terra.
Com o PCP na vanguarda, muitas foram as lutas desenvolvidas pelo heróico proletariado alentejano que, dando corpo e expressão à exigência de melhores jornas, pelas oito horas de trabalho, contra a fome, por melhores condições de vida, pela liberdade e contra o fascismo, marcaram indelevelmente a história desse século. Foi com a Revolução de Abril e a força das massas em movimento, dirigidas politicamente pelo PCP, que se geraram as condições para dar corpo à ancestral reivindicação do proletariado agrícola alentejano e ribatejano – «A Terra a quem a trabalha» – assumindo que não a queriam para si, mas para a pôr a produzir ao serviço da pátria, dando pão e trabalho e melhores condições de vida.
Necessidade do nosso tempo
Fez no dia 9 de Fevereiro 40 anos que se realizou em Évora a primeira Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul, promovida pelo PCP, que juntou mais de 30 mil trabalhadores. Tratou-se de uma conferência histórica, que marcou a decisiva arrancada colectiva para a ocupação de terras no Alentejo e Ribatejo, dando assim corpo à Reforma Agrária. 40 anos após o seu início, comemoramos com orgulho a enorme epopeia dos trabalhadores agrícolas alentejanos e ribatejanos, que decidiram transformar o sonho em vida, tomando nas suas mãos o seu próprio destino, construindo de forma criativa e inovadora aquela que, como Álvaro Cunhal designou, foi «a mais bela conquista de Abril».
A Reforma Agrária pôs a nu, por um lado, a contradição fundamental do capitalismo – a apropriação privada dos meios de produção e o carácter social da produção –, revelou que a terra tem uma função social e demonstrou que, com os meios de produção postos aos serviço do País, era possível aumentar a produção, criar emprego e elevar as condições de vida dos trabalhadores. A Reforma Agrária mostrou as enormes potencialidades de organização e de produção das UCP/Cooperativas da Reforma Agrária que introduziram novos processos produtivos e novas culturas, contribuindo de forma assinalável para a soberania alimentar.
A Reforma Agrária foi derrotada pelas forças do grande capital que, utilizando os governos do PS, PSD e CDS e agindo contra a Constituição, puseram os campos do Sul a ferro e fogo, reprimindo e matando. Mas os trabalhadores lutaram até ao limite em defesa da Reforma Agrária e da produção nacional, da sua dignidade e do direito ao trabalho.
O sonho ancestral do proletariado agrícola dos campos do Sul, onde continua a predominar o latifúndio – apesar do uso e posse da terra de milhares de hectares ter mudado para mãos estrangeiras –, continua vivo, num País que tem um enorme défice alimentar. A necessidade de uma nova Reforma Agrária, nas condições actuais, coloca-se como uma necessidade do nosso tempo, exigindo uma política e um governo patrióticos e de esquerda. Não desistiremos de transformar o sonho em vida!